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Ao se tornar diretora de uma das escolas com maior evasão de alunos na cidade baiana de Camaçari em 2010, Edicleia Pereira Dias se uniu a colegas para tentar descobrir o porquê daquela situação. A primeira hipótese era o trabalho infantil, mas havia algo mais, e a resposta veio apenas dois anos depois.

A análise de um gráfico gerado por computador após a inclusão das ausências em planilhas mostrava um padrão comum às meninas: elas faltavam todo mês por dias consecutivos. Uma secretária ligada a programas sociais chutou a resposta, que se mostraria verdadeira: o período menstrual.

A “pobreza menstrual” era um tema de pouca repercussão na época e não motivava projetos de lei como hoje, a exemplo do vetado na semana passada. E passava longe de ser associado ao cotidiano de meninas.

A diretora da escola, que hoje tem 42 anos, até conhecia o termo, de um curso de especialização sobre dificuldades de mulheres adultas. Não imaginava até então que atingisse as alunas da Escola Municipal Cosme de Farias, instituição de ensino fundamental que dirigia.

Edicleia e outros funcionários passaram então a comprar absorventes para as meninas. Eles eram embalados com fitas e entregues discretamente, como presentes, com outros itens de higiene e cosméticos, para não constranger ou expor as alunas. “Nunca falamos que era algo para ajudar.”

Das primeiras 15 alunas identificadas pela equipe, o número logo passou a cerca de 50. “A gente viu que de fato interferiu na dinâmica da escola”, explica. Segundo a diretora, meninas chegavam a faltar mais de uma semana ao mês no período menstrual. Situação que também levava algumas à evasão escolar, por não conseguirem acompanhar o conteúdo.

“Estou falando de meninas de 10, 11 anos, que às vezes não têm água para tomar banho”, relata a diretora. Aos poucos, também foi criado um código. Bastava ir à sala da direção e deixar a mochila aberta sobre a mesa, sem precisar mencionar nada, para que a diretora colocasse nela os absorventes. Segundo Edicleia, algumas meninas tinham vergonha de pedir ou de falar sobre o assunto. “Começou com uma sutileza, para que se sentissem mais confortáveis. Que soubessem que naquele ambiente poderiam contar com apoio toda vez que precisassem de absorvente.”

Com o tempo, a escola passou a ofertar os itens em dispensers instalados nos banheiros, mas continuou com a distribuição dos “presentes” para garantir que as meninas estivessem assistidas também fora do horário escolar. Além disso, temas como saúde e cuidados com o corpo passaram a ser tratados em sala de aula. Em 2014, a iniciativa ganhou o nome de Banco de Absorventes.

Problema maior

A situação mudou de vez cinco anos depois, quando a escola fez parceria com uma professora de dança que dava aulas de graça mediante o cumprimento da frequência. Certo dia, uma menina de 11 anos foi, mas se recusou a dançar.

Ao ser questionada pela professora, ela contou que receava se sujar, pois estava menstruada e utilizava papelão para conter o sangramento. Naquele momento, a escola percebeu que o problema era ainda maior, pois afetava também as meninas que não faltavam, mas que utilizavam itens inadequados para a situação.

“Imagine você, nos seus primeiros ciclos, não ter condição de ter higiene adequada e aí colocar papelão”, desabafa a diretora. “Hoje, consigo falar disso sem me emocionar, mas já chorei muito, é muito degradante.”

A professora de dança ficou chocada e, ao saber do projeto escolar, passou a divulgá-lo nas redes sociais. A iniciativa chamou a atenção da comunidade, que até hoje contribui com doações, e todas as meninas agora ganham kits mensalmente. “Essa repercussão começou com uma criança usando papelão em 2019. Essa criança rompeu a bolha em que estávamos fechados”, comenta.

A diretora passou a gerir outra escola municipal recentemente, mas a iniciativa é levada adiante por funcionários da Cosme de Farias. Hoje, os presentes são entregues com mensagens motivacionais, como “você é guerreira”.

Edicleia ressalta que a pobreza menstrual costuma estar ligada a um contexto social de falta de acesso a diversos recursos básicos. “Por trás, há uma menina que não se alimenta direito, não tem acesso a serviços de saúde, não tem saneamento básico em casa.”
Sobre o veto de Bolsonaro ao PL que previa a distribuição de absorventes, ela se diz arrasada. “Não esperava muita coisa (do presidente), mas a minha esperança é que (o PL) entrasse, mesmo que com alguns vetos”, comenta. “Sinto como se tivesse perdido algo.”

Um relatório lançado em maio pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) estima que cerca de 4 milhões de meninas brasileiras não têm acesso a itens básicos de cuidados menstruais nas escolas. Outras 713 mil vivem sem acesso domiciliar a banheiro ou chuveiro, enquanto 900 mil não têm água canalizada. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Priscila Mengue

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